ArtigosUm consórcio de muita raça
A ABCZ transforma a genética bovina em artigo de exportação
O caminho foi longo, mas extremamente bem-sucedido. O Brasil, que no início do século 20 era um grande importador de reprodutores e matrizes da raça zebu, entrou no século 21 como um dos principais centros de biotecnologia pecuária do mundo. O melhoramento genético dos animais despertou a atenção dos especialistas estrangeiros. Muitos deles estiveram no Brasil, gostaram do que viram e acabaram fechando um ou outro negócio. O problema é que, até 2003, não havia um programa sistemático de divulgação do trabalho que era realizado em território nacional. Também não havia acordos sanitários que permitissem a exportação de material genético produzido no Brasil para outros países do mundo. Até aquele ano, essa possibilidade estava restrita, praticamente, aos parceiros do Mercosul. Por esses motivos, embora o produto fosse de alta qualidade – especialmente os embriões congelados e o sêmen bovino extraído para inseminação artificial -, as exportações do material genético brasileiro eram quase irrelevantes.
Nesse momento, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) percebeu que era hora de fazer algo a respeito. Organizadora da ExpoZebu, a maior feira mundial da raça, realizada todos os anos em Uberaba, no Triângulo Mineiro, a ABCZ decidiu contratar um profissional capaz de viabilizar um projeto de exportação. Chegou ao zootecnista Gerson Simão, que tinha a formação técnica necessária e a experiência internacional para lidar com estrangeiros. Filho de um imigrante angolano que se refugiou no Brasil depois da Revolução dos Cravos, em Portugal, na segunda metade dos anos 1970, Simão havia trabalhado na área de logística na Inglaterra e na Austrália. A seu favor também pesava o fato de conhecer muitas das empresas de biotecnologia da região de Uberaba, onde cresceu e cursou faculdade. Sede da ABCZ, a região de Uberaba concentra, num raio de 250 quilômetros, 90% das empresas brasileiras que lidam com o melhoramento genético bovino.
Designado para montar um projeto de exportação e apresenta-lo à APEX-Brasil, Simão foi a luta. “Todas as empresas procuradas ficaram interessadas”, afirma. “Estava claro que havia nesse setor um imenso potencial de crescimento”. A proposta foi entregue à APEX-Brasil em fevereiro de 2003. em setembro daquele ano, já com o apoio da Agência, um primeiro grupo de empresas participou de uma feira em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Surgia, assim, o consórcio Brazilian Cattle Genetics, com a missão de divulgar a genética zebuína, para gerar negócios e promover um intercâmbio internacional entre fazendeiros, produtores e especialistas na área.
No primeiro ano de atividades do Brazilian Cattle, em 2003, as vendas para o exterior chegaram a US$ 4 milhões. No ano seguinte atingiram US$ 15 milhões - um salto de quase 300%. Em 2005, foram ainda melhores, totalizando US$ 20 milhões. Em 2006 a expectativa é de crescer mais 20%. Entre outros fatores, a evolução é resultado do aumento do número de empresas participantes. Em 2005 faziam parte do consórcio 20 companhias, algumas delas não pertencentes â área de biotecnologia. O programa passou a incluir empresas de todos os segmentos da cadeia. Além daquelas focadas na comercialização de sêmen congelado, fazem parte do Brazilian Cattle empresas da área de nutrição, de produtos veterinários, associações e até uma trading. Para ingressar no consórcio, o interessado paga uma taxa de US$ 10 mil, a título de luvas, e tem a obrigação de investir, pelo menos, outros US$ 5 mil por ano em feiras no exterior.
Na média dos três primeiros anos de atividade, as exportações de material genético responderam por 40% do volume de negócios gerados pelo consórcio. Em 2005 foram exportadas 123 mil doses de sêmen para oito países ( Angola, Colômbia, Equador, Paraguai, Senegal, Tailândia, Uruguai e Venezuela), o dobro de 2004. Depois de extraído de reprodutores de alta linhagem, o material é congelado em nitrogênio líquido. As ampolas que carregam o sêmen têm o tamanho de uma carga de caneta convencional e são acondicionadas numa espécie de botijão capaz de transportar cerca de 5 mil doses.
Antes de ser vendido, o sêmen é tratado com antibióticos para evitar contaminação. O processo está se aprimorando. Em 2004 a companhia americana ABS Pecplan, uma das líderes mundiais em inseminação artificial bovina, desenvolveu em Uberaba, onde atua há três décadas, uma técnica inovadora: a extração de sêmen sexado. Seus laboratórios são capazes de separar o sêmen por sexo – o comprador escolhe se quer macho ou fêmea, com índice de acerto perto de 100%. Poucas empresas no mundo dominam essa técnica.
O grau de desenvolvimento tecnológico das empresas que atuam na região de Uberaba costuma surpreender os visitantes estrangeiros. E são muitos. O Brazilian Cattle aproveita a realização da ExpoZebu para convidar fazendeiros e especialistas de fora do Brasil para conhecer seus projetos. Em 2003 foram 227 visitantes internacionais. Em 2005 vieram 532, de 25 países, entre americanos, chineses, italianos, franceses e australianos. O Brazilian Cattle preparava roteiros especiais para recebe-los, levando-os a fazendas, laboratórios e às sedes das empresas.
O consorcio também procura desenvolver a integração entre o meio empresarial e o universitário. Durante a ExpoZebu, contrata estudantes da Faculdade de Zootecnia de Uberaba que dominam línguas estrangeiras para atuar como intérpretes dos visitantes internacionais. Os recém-chegados à cidade percebem a atmosfera de otimismo que predomina na região. Às margens da rodovia BR – 050, que faz a ligação entre Uberaba e Uberlândia, chamam a atenção as novas instalações da canadense Alta Genetics, que investiu US$ 3 milhões numa das mais modernas centrais de inseminação artificial do mundo, construída de acordo com as normas da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). Entre outras benfeitorias, as balas destinadas aos reprodutores são climatizadas para evitar o estresse térmico dos animais.
Com o apoio da APEX-Brasil, o Brazilian Cattle também assumiu o desafio de fazer o marketing do Zebu no mundo. “Hoje 80% dos 200 milhões de cabeças de bovinos existentes no Brasil tem sangue zebuíno”, diz Simão. Os zebus chegaram ao Brasil no final do século 19, vindos da Índia. Tinham características genéticas que lhes permitiram uma adaptação perfeita às condições das pastagens brasileiras. Com os melhoramentos genéticos e a evolução das técnicas de manejo, eles ganharam prestígio em todo o mundo. Agora, começam a ensaiar um caminho de volta para o continente asiático.
Entre os planos do Brazilian Cattle está a montagem de uma fazenda-modelo para a criação de uma das variedades zebuínas, o gir leiteiro na China, em parceria com o instituto de pesquisas da província de Yunnan. As perspectivas são boas. O consumo per capita de leite na China terá de investir muito na multiplicação do seu rebanho. E o consórcio da ABCZ, com o apoio da APEX-Brasil, já estará lá para ajuda-la na empreitada.
